sexta-feira, 19 de março de 2010

O APITO SALVADOR

Nasci numa época em que tudo inspirava o fantástico - telenovela, Saramandaia, tele-seriados,Capitão Márvel, e as conversas em volta da fogueira, que quase sempre eram de lendas urbanas, como, por exemplo, A Loura do Banheiro.
Eu tinha oito anos, filha única, bajuda e paparicada pelos meus pais e, principalmente, pelos meus avós. Minha imaginação, bem-adubada por todas aquelas estórias que ouvia,era mui fértil.
Certa noite, ispirada pela estória da Loura do Banheiro, decidi dar um tremendo susto em minha mãe. Sorrateiramente, adentrei a cozinha, apanhei no armário uma caixa de maizena. Eu havia vestido uma camisola branca, maquiado uma mancha preta em torno dos olhos. Com um batom vermelho, tinha traçado alguns riscos, que desciam pelos meus lábios, dando a impressão que minha boca e o nariz sangravam. Depois coloquei na boca presas de vampiro, daquelas em forma de prótese. Para completar o fantasmagórico figurino, joguei maizena no rosto, fui para o banheiro.
Assim que mamãe entrou para tomar banho, abriu a divisória, deu de cara comigo. Emiti um pavoroso gemido, semelhante ao das almas-penadas. Ela arregalou os olhos, recuou dando um grito estridente de pavor, que senti até dor nos ouvidos.
- Ahhhhhhhhhhhh... Eu vou te pegar! Ahhhhhhhhhhhhhh...
- Cruz-credo! Valha! meu Deus! Que coisa horrorosa! - fez ela saindo às carreiras do banheiro.
Vez por outra, devido às minhas peraltices, mamãe me dava algumas palmadas. Eu ia chorar as pitangas para meu avô. Ele havia me dando um apito e me dissera que em caso de minha mãe querer me bater, era só eu apitar que ele viria me proteger.
Naquele dia, passado o susto, quando mamãe se dera conta de que o fantasmagórico vampiro era eu, em carne e osso, resolveu me dar um corretivo. Ela sai atrás de mim, num pega-não-pega dos diabos. Desesperada, lembrei-me do apito. À medida que corria, apitei várias vezes, na esperança que vovô viesse me socorrer. E vocês pensam que o velho veio? Que nada!
Minutos depois, ainda sentindo o bumbum ardendo devido às palmadas que levei, fui ter à casa dele. Encontrei-o bem folgado, estirado numa rede:
- Vovô, por acaso o senhor é surdo?
- Não, querida! Por quê?
- Ora, pois está parecendo que o senhor é surdo sim! Será possível que o senhor não me ouviu apitando, correndo desesperada pra me livrar da mamãe, e o senhor aqui deitado nesta rede dormindo sossegado. Faça-me o favor, né, vovô! Quer saber de uma coisa? Estou de mal com o senhor! - repliquei fazendo um muxoxo.
- Quiá, quiá, quiá, quiá! Não fica zangadinha, não, meu bem! Diga-me quem é a menina mais bonita deste bairro?
Eu me fiz de mouca, nada respondi!
- Ah! não quer dizer! Já sei... É uma menina que mora lá longe, perto do supermecado!
- Não é não, Seu bobo! Sou eu a menina mais bonita deste bairro! - repliquei cheia de empáfia.
Daí, vovô me abraçou, me beijou e a dor de meu bumbum passou e eu já estava pronta para outra...

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